Raquel Schembri por Marina Câmara

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Após períodos em que se dedicou a estudos e residências internacionais, assim como à exploração de outras técnicas, a residência no Jardim Canadá – essa ilha, como ela definiu o bairro, devido ao seu isolamento – ofereceu à artista tanto a possibilidade de se dedicar, novamente, de modo imersivo à pintura, quanto a liberdade para compartilhar algumas singularidades de suas experimentações.

Em uma conversa, a artista me disse que seu trabalho funciona como um espelho. Eu diria, entretanto, que essa relação reflexiva que confere à sua produção uma força singular, faz também pensar esse refletir-se não como um lugar de representação, mas como o ato de sair de si que transforma, ao mesmo tempo, sua pintura e a si própria.

A inquietação de seus trabalhos traz consigo variações de temas, mas é a partir das movimentações formais que talvez melhor possamos dele nos aproximar. Se desde de suas primeiras telas, a ausência de acabamento era propositalmente visível, seu processo no Jaca indicou uma decisiva intensificação desta característica.

Suas pesquisas em torno do sagrado que perpassa boa parte de sua produção, poderiam estar sugeridas na atenção dedicada à essência da pintura, pensada aqui como sua matéria, ou seja, a tinta em si. Mas o abandono dos detalhes figurativos e crescente utilização das livres pinceladas – muitas vezes empastadas de tinta acrílica – remeteria, portanto, à expressão do essencial? De qualquer modo, esse percurso não se resume a algo cuja essência possa se encontrar em uma materialidade. Tampouco a abstração, um dos caminhos que a artista vem percorrendo, compreenderia sua finalidade.

A imagem nos trabalhos de Raquel por quanto silêncio emane e evoque, fala. Foi através de imagens que ela se comunicou enquanto esteve em países cujas línguas ainda não dominava, tais quais a Alemanha ou a Coréia do Sul. E talvez o fato de ter estado verbalmente incomunicável naquele período a tenha sensibilizado ainda mais para aquilo que hoje configura uma das maiores expressões de sua pintura: o gesto.

No Jaca a artista desenvolveu algumas séries, dentre as quais uma transposição de fotos feitas ao longo do trajeto Belo Horizonte – Jardim Canadá, para a pintura. Essa transformação da fotografia feita de dentro de um carro em movimento para a pintura, já havia sido experimentada por ela em “Da janela” (2008). A particularidade que chama atenção na série feita no Jaca é o modo de assimilação da atmosfera da paisagem nesta pintura.

Como dito pela própria artista, as imagens que antes serviam como referência durante toda a execução da pintura são, agora, somente um ponto de partida. Liberando-se rapidamente da fonte, usando o nanquim e não mais a tinta acrílica, nesta série ela impregna o papel com a carga sentida por quem percorre a BR-040, ao mesmo tempo que extrai uma enorme estrutura poética dessa estrada chuvosa, desmatada e repleta de mineração por de trás dos escassos eucaliptos que a margeiam. A distorção que as gotas da chuva sobre o vidro do carro infligiam na paisagem fotografada faz com que a artista decididamente solte o gesto, tornando assim ainda mais livres as reverberações possíveis a partir da sua pintura.

Outra série feita em nanquim foi realizada a partir não mais de fotografias, recortes ou imagens coletadas, mas de uma simples prancha de granito. A artista se deixa projetar por imagens oferecidas por aquela superfície através da qual é se vêem os sucessivos depósitos da matéria que formam a pedra. Sua imagem-referência é, agora, declaradamente, seu olhar. Ou melhor, ela parece pintar não mais um objeto, mas sim aquilo que se forma no espaço entre o objeto a partir do qual sua pintura se fará imagem, e seu olhar.

Das vezes em que as pinturas feitas durante esta residência se aproximaram do figurativo, uma das protagonistas retratadas foi a sombra. As gradações de luz pintadas pela artista, ainda que delimitadas, como bem faz o sol no Jardim Canadá, nos fazem pensar mais uma vez que suas escolhas assumem gestos lúdicos. Em que sentidos ações como imaginar figuras ao olhar as nuvens, transpor formas enxergadas em uma prancha de pedra ou pintar estes seres espectrais, as sombras, podem denotar um modo de se arriscar e desconstruir certezas e aceitações?

Definindo o original, Raquel me disse sobre a importância de compreendê-lo não como algo relacionado ao novo ou a uma origem temporalmente localizada em um passado, mas, ao contrário, como algo único, singular. Esta unidade enquanto sinônimo de originalidade é, portanto, certamente atemporal, “[...] como o embrião [que] continua a agir nos tecidos do organismo maduro e a criança na vida psíquica do adulto”. Não há linearidade ou evolucionismo nas técnicas que a artista emprega nem tampouco nos conceitos dos quais se vale, já que, como dito, o reflexo formado entre ela e seu trabalho não é da ordem causal da representação, mas da ordem heterogênea da transformação.