Raquel Schembri: “Solo” ou as múltiplas vozes do uno

“O artista é um solitário. (…) Ele nasce dentro dele,
parto difícil a cada minuto, só irremediavelmente só”.
(Lygia Clark. Carta a Mondrian, 1959)

Para o sociólogo Zygmunt Bauman, numa época em que tudo se torna fluido, volúvel e flexível, os modelos, estruturas e relações já não perdurariam o suficiente. Nos trabalhos de Raquel Schembri essas noções se afloram de modo particular e se estendem à atual ambivalência das identidades, códigos e expressões. Sua mostra “Solo” procura se articular a partir da mistura de diversas linguagens na criação de uma “ambiência” única e polissêmica. Da pintura ao desenho e às intervenções diretas nas paredes da galeria, cria um espaço que, paradoxalmente, aproxima todas essas linguagens sem deixar de estabelecer múltiplas conexões com a idéia de “solidão”. Aqui tudo aparece junto e ao mesmo tempo.

Realizadas com pinceladas sutis, tons frios e pastéis, fundos vagos, suas pinturas sobre tela são intimistas, mas potencializam a força expressiva do retratado: elogio à alteridade e à solidão. Já na série de desenhos realizados em páginas de um livro sobre dissecação de cadáveres, Schembri cria imagens negras vigorosas, de forte teor gráfico. Essa operação parece questionar as identificações possíveis entre a precisa descrição textual do corpo nos tratados médicos e a inescrutável personalidade dos humanos, o que é reforçado pelos desenhos de ferramentas cirúrgicas antigas e outros signos do universo da medicina, pintados diretamente na parede.

Em “Solo”, o espaço real é posto como medida de localização, “chão” a partir do qual se articulam complexas relações entre o desenho, a pintura e o seu entorno. No momento em que faz coincidir num mesmo espaço trabalhos de dimensões variadas, dinamizando e tornando o espaço real um “campo ampliado” de experimentações, tudo parece se fundir para confundir. As intervenções feitas nas paredes ― elaboradas no momento da execução e que se estenderão por alguns dias após a abertura da exposição ― deixarão aos espectadores o privilégio da fruição de um work in progress, ao mesmo tempo intimista, efêmero e processual, em consonância com o solitário processo de criação da artista no atelier. Na mostra “Solo”, a paisagem da galeria será desconstruída, dando lugar a uma nova paisagem: a galeria transformada provisoriamente em atelier, espaço de criação onde a artista irá compor uma sinfonia única de múltiplas vozes.

Luiz Flávio.
Artista e professor de História da Arte Contemporânea do curso de pós-graduação História da Arte da PUC-MG.